Contos do Passado

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Contos do Passado

Mensagem por Dmitri Volkov em Seg 11 Jan 2016 - 21:37

     Uma fraca luz iluminava o interior de uma pequena garagem, provavelmente já se passavam das dez da noite. O local tinha um aspecto de desorganizado, no entanto o homem que estava lá dentro já não tinha problemas em localizar algo quando precisava, em silêncio ele manejava com cuidado algumas de suas armas de fogo, realizando a manutenção periódica.

--Cinco anos... – Disse o homem sussurrando para si, quando seu olhar desviou-se para o calendário preso a parede.

     Suas mãos calejadas abriam uma nova Heineken long neck e o homem tomava um bom gole enquanto memórias de seu passado vinham a tona. Faziam cinco anos desde de sua última missão como Volkov, cinco anos que tinha perdido os poucos e bons amigos que havia cultivado, cinco anos que as trevas escondidas neste mundo haviam se revelado diante de seus olhos.

     ~Cinco anos atrás.


--Volkov... Volkov! – Chamou Ivan.

     Dmitri Volkov estava distraído, havia tido um mal pressentimento, coisa que com o tempo passou a respeitar, mesmo que fosse um tanto cético com essas coisas, ele geralmente estava certo. O chamado do amigo e companheiro de equipe lhe trouxe de volta. A neve caía incessantemente durante o inverno russo e a noite fazia com que a temperatura ficasse ainda menor. Volkov chefiava a equipe de assalto para abordagem de um terrorista que havia fugido para a Rússia a alguns meses, a inteligência havia passado as coordenadas e agora estavam devidamente posicionados. O alvo deveria estar no interior de um grande galpão abandonado.

     Volkov fez o sinal e seus companheiros se posicionaram para arrombar uma porta lateral do grande galpão. A pancada do aríete de metal arrombou facilmente a porta e em segundos a equipe adentrou o local e passou a ganhar o ambiente, iluminando o local graças às lanternas táticas acopladas aos fuzis. Alguns minutos depois, novamente a voz de Ivan chamou por Volkov.

--Volkov, encontrei o alvo... acho que você vai querer ver isso aqui. – Disse o combatente pelo rádio.

     Volkov foi ao encontro de Ivan, enquanto designou quatro dos demais para que continuassem a vistoriar a edificação. No caminho, Volkov não podia deixar de notar que o local estava tranquilo, tranquilo demais, parecia vazio, mas se isso fosse verdade, por que ele continuava a sentir aquele pressentimento ruim? Como se o perigo estivesse a espreita? O chefe de equipe logo chegou ao encontro de Ivan e não pode deixar de estranhar o que viu.

--Que merda, não é? Será que foi um urso?  -- Disse Ivan enquanto Volkov ainda observava a cena.

     A porta do escritório do local estava arrombada, marcas do que pareciam ser garras de alguma fera no que restou da porta de madeira, do lado de dentro, o alvo, ou o que sobrou dele. A cada passo Volkov podia sentir a poça de sangue aos seus pés, o corpo estava dilacerado e com alguns pedaços faltando. Volkov já havia visto muita coisa de dar embrulhos no estômago de qualquer um, mas a cena, todo aquele sangue... sem dúvida aquilo entraria pra lista dos piores.

--Que merda... – Disse Volkov enquanto tentava pensar o que tinha acontecido ali. – Urso? Essa região não tem ursos Ivan.

-- Eu sei que não, mas olha a porta, o que mais você acha que poderia ter feito isso? – Disse pegando um cigarro de seu bolso.

--Não sei, mas não é problema nosso, vamos tirar umas fotos, ensacar o que sobrou do sujeito e dar o fora daqui, não estou gostando dessa merda toda. – Respondeu Volkov dando as costas pra cena.

     Antes que sua mão pudesse alcançar o botão do rádio, disparos passaram a ecoar, instintivamente ele erguia sua arma e logo Ivan colava em suas costas indicando que estava pronto para seguir também. Os disparos continuavam e um rugido animalesco tomou conta de todo o local, um calafrio percorreu a espinha de Volkov.

“Merda... preciso mesmo sempre estar certo? Mas que porra é essa?” – Pensou enquanto começava a avançar com seu companheiro na direção dos disparos. Seu coração acelerava mais do que o comum, como um membro bem treinado das forças especiais, Volkov conseguia controlar muito bem sua adrenalina e manter-se focado, não se lembrava de ter se sentido assim uma única vez em todos os seus anos de exército, um medo irracional que não pode ser descrito, apenas sentido.

     Os estampidos dos disparos continuavam, agora acompanhados de alguns gritos de horror, Volkov e Ivan estavam chegando ao final do corredor para o salão do galpão, suas mentes não conseguiam parar de se perguntar o que poderia estar acontecendo, se fosse realmente um urso, com certeza tantos disparos já teriam dado conta do recado, o que poderia fazer com que homens tão bem treinados como eles gritassem daquela maneira? Medo... quanto mais se aproximava, mais Volkov era capaz de sentir o medo de seus companheiros, mas havia algo a mais, uma raiva incontrolável também se fazia presente...

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Re: Contos do Passado

Mensagem por Dmitri Volkov em Dom 24 Jan 2016 - 22:02

    “Quando era criança eu costumava acreditar em monstros, mais tarde me dei conta que os monstros não habitavam o guarda-roupas ou qualquer outro lugar, e sim dentro dos homens... é... parece que eu estava certo quando criança"


    Apesar do frio, uma gota de suor escorria pela lateral de seu rosto. Acompanhado de Ivan, Volkov finalmente chegava ao salão do galpão, a adrenalina aguçava seus sentidos, ouvia ali próximo alguém que parecia sufocar, a lanterna tática acoplada a seu rifle automático iluminava a fonte do som, revelando um de seus companheiros caídos com um grave corte no pescoço que o fazia sufocar no próprio sangue, não havia nada que pudesse ser feito.

    Ivan colava suas costas com a de Volkov, de maneira que os dois pudessem cobrir o ângulo de 360 juntos, suas lanternas varriam a escuridão enquanto ambos sabiam que havia alguém ou algo a espreita. Volkov notou uma rápida movimentação na escuridão, todo seu corpo entrava em estado de alerta, de alguma forma sabia que se não fizesse alguma coisa, acabaria como os outros. Sua mão de apoio deixou o rifle para pegar uma granada de luz e som que estava presa ao seu colete.

-Flashbang, duas horas. – Sussurrou, de forma a avisar o amigo tanto o ato como a direção.

    Volkov lançou a granada e tratou de proteger os olhos fechando-os e colocando a mão a frente. Um clarão acompanhado de um grande estrondo fez-se em seguida, um rugido animalesco também podia ser ouvido. Volkov e Ivan agora avançavam lado a lado, dobrando o poder de fogo e seguindo na direção do rugido. Novamente aquela sensação, apesar dele estar, pela lógica, em situação de vantagem tática, a sensação de perigo tornou-se ainda mais poderosa, como se ele soubesse que estava caminhando em direção a morte, o que seus olhos viram em seguida tratou de justificar aquele sentimento. Uma criatura de mais de dois metros de altura, músculos saltados, pelos enegrecidos, corpo humanoide, mas com a cabeça de um lobo atroz.

    Estavam perto demais, mesmo aparentemente desorientado, o monstro saltou em sua direção, um, dois, três, talvez quatro disparos antes do impacto. Graças a desorientação momentânea, o monstro errou o ataque com suas garras afiadas, atingindo Volkov com o antebraço num forte movimento de arco e lançando-o facilmente na direção de umas caixas antigas.

    Sua cabeça doía, seu olhar esverdeado finalmente voltava a enxergar, estava deitado, o local era desconhecido, quando tentou se levantar uma dor lacerante lhe acometeu nas costelas.

--Ugh... – Resmungou de dor colocando a mão nas costelas só então notando que a mesma estava com medidores de sinais vitais.

“Um hospital...? O que...? Ivan!” – Seu olhar se arregalou quando sua memória finalmente retornou.

    Volkov esteve em coma durante 3 semanas, mas essa era a mais branda das notícias, Ivan, assim como os outros membros da equipe estavam mortos, ele era o único sobrevivente e as autoridades tinham muitas perguntas. De início, Volkov insistiu em contar-lhes a verdade, contava tudo exatamente como havia acontecido, mas tudo que ele conseguiu foram incontáveis avaliações e terapias psiquiátricas. O tempo e a ameaça de internação em um hospital psiquiátrico fez com ele dissesse o que todos queriam ouvir, que a pancada na cabeça tinha lhe confundido as memórias, e que na verdade o incidente foi ocasionado por alguns ursos que haviam tomado abrigo no galpão abandonado.

    Mesmo com a versão, Volkov foi afastado do exército, recebendo uma boa quantia em dinheiro para que vivesse o restante de sua vida sem mencionar o incidente e manter a versão que tanto agradou os superiores. Sequer teve coragem de visitar o cemitério onde descansavam seus amigos, queria deixar aquela noite para trás, queria deixar tudo para trás.


    ~ Atualmente.

    O gosto amargo da cerveja ainda estava em sua boca quando seus pensamentos finalmente lhe traziam de volta para o que estava fazendo.

“Talvez eu também tenha morrido naquela noite...” – Pensou enquanto alimentava sua pistola Glock 9mm que havia acabado de realizar a manutenção, colocando-a no seu coldre preso a calça e escondido sob a blusa.

    Batidas na porta da garagem, o tempo havia passado rápido, por um momento esqueceu-se de que tinha aceitado um convite para jantar na casa de seu vizinho. É realmente engraçado como o destino pode te seguir, não importando o quão longe você vá.

--Vamos John! Não vamos ficar te esperando pra sempre pra jantar! – Disse uma conhecida voz feminina.


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